A Sony confirmou que vai parar de produzir discos físicos para novos jogos de PlayStation a partir de janeiro de 2028. Depois dessa data, os lançamentos chegarão exclusivamente pela PlayStation Store e por códigos de download vendidos em varejistas. A empresa justifica a mudança com base na preferência do público, que hoje consome uma parcela muito maior de mídia digital do que física.

A decisão já está reorganizando a estrutura industrial por trás da produção de discos. A fábrica de Thalgau, na Áustria, responsável por parte significativa da manufatura de mídia física da Sony, vai direcionar sua capacidade para um componente bem diferente: microlentes ópticas.

O que muda para quem compra jogos

O fim da produção de discos não afeta os jogos já lançados nem os títulos que ainda chegarem em mídia física antes de janeiro de 2028 — segundo a própria PlayStation, quem já tem coleção física continua podendo usá-la normalmente. A mudança recai sobre os lançamentos futuros, que passam a ser vendidos majoritariamente por download, seja diretamente na loja digital do PlayStation, seja por meio de códigos comercializados em lojas parceiras. Além disso, as mudanças no mercado de jogos digitais refletem um cenário em transformação.

Essa transição altera práticas que fazem parte do mercado de jogos físicos há décadas: a revenda de jogos usados perde espaço, emprestar um game para outra pessoa fica mais difícil, e o vínculo do jogador passa a depender cada vez mais da conta digital em vez de um objeto físico guardado em casa.

Da fábrica de discos às microlentes ópticas

A fábrica de Thalgau produzia cerca de 600 mil discos por dia, metade deles destinados ao PlayStation. A expectativa da Sony é que esse volume caia para apenas 10% até 2028. Em vez de encerrar a operação, a empresa optou por reconverter a estrutura: os cerca de 300 funcionários da unidade serão treinados para produzir microlentes ópticas, componentes usados para redirecionar luz com precisão em aplicações que vão de veículos a headsets. Segundo reportagem do The Verge, a Sony já investiu 30 milhões de euros nessa transição.

GTA 6 antecipa o que vem pela frente

O lançamento de GTA 6, marcado para 19 de novembro de 2026, ilustra bem a direção que o mercado já está tomando antes mesmo do prazo definido pela Sony. A versão física do jogo vendida pela Rockstar não trará o disco em si — a caixa contém apenas um código para download, com envio previsto para 12 de novembro, data em que começa o pré-carregamento. Quando um lançamento do porte de GTA 6 abandona o disco antes mesmo da mudança oficial da Sony entrar em vigor, o efeito tende a normalizar essa transição para o restante do mercado, reforçando a passagem de "comprei um objeto" para "comprei uma licença de acesso".

As dúvidas que o modelo digital ainda não resolve

A comodidade do modelo digital é real: não é preciso sair de casa para comprar um jogo, trocar discos deixa de ser necessário, e promoções digitais costumam ser vantajosas. Ainda assim, a mudança levanta questões que continuam sem resposta definitiva — o que acontece se uma loja digital fechar, se um jogo sair de catálogo, se uma conta for perdida ou banida, ou se o acesso depender de uma conexão de internet que nem todo mundo tem de forma estável. Em um panorama legislativo que busca regulamentar e proteger os direitos dos consumidores, essas são preocupações relevantes.

A Sony afirma estar acompanhando a forma como a maior parte do público já prefere acessar seus jogos. Mas "maioria" não é sinônimo de unanimidade: colecionadores, jogadores que dependem de revenda para financiar novas compras e usuários com acesso limitado à internet continuam representando uma parcela relevante do mercado que essa transição não contempla da mesma forma.

O que ainda resta do modelo físico

Até janeiro de 2028, discos físicos de PlayStation continuam sendo lançados normalmente. A partir dessa data, novos títulos passam a ser predominantemente digitais — e o realinhamento da fábrica de Thalgau para outro tipo de produção sugere que essa direção não deve ser revertida. O caso de GTA 6 mostra que parte do mercado já está se movendo nessa direção antes mesmo do prazo oficial, o que torna a mudança da Sony menos uma ruptura repentina e mais a formalização de um processo que já estava em curso.