A Samsung está lidando com um racha interno crescente depois que a alta demanda por chips ligados à inteligência artificial gerou uma diferença expressiva nos bônus pagos entre divisões da empresa. Segundo a Reuters, trabalhadores da divisão de produtos de consumo da Samsung planejam um protesto em 16 de julho de 2026, próximo ao campus da companhia em Suwon, na Coreia do Sul, em resposta a um acordo recente que garante bônus muito maiores aos funcionários da área de semicondutores.

A diferença de bônus que motivou a revolta

De um lado está a divisão Device Experience, conhecida como DX, responsável por produtos amplamente conhecidos do público, como celulares Galaxy, televisores e eletrodomésticos. Do outro está a divisão Device Solutions, a DS, focada em semicondutores, área que ganhou força justamente com a corrida global por memória voltada a inteligência artificial.

Segundo informações atribuídas à Yonhap e repercutidas pela Reuters, funcionários da divisão de consumo devem receber cerca de 6 milhões de won em ações em 2026, enquanto trabalhadores da área de semicondutores podem chegar a bônus de até 600 milhões de won, uma diferença de aproximadamente 100 vezes entre as duas áreas da mesma empresa.

Por que os semicondutores ganharam esse peso na empresa

A expansão da inteligência artificial elevou a demanda por chips de memória como DRAM, NAND e HBM, componentes essenciais para data centers, servidores e sistemas voltados ao processamento de grandes volumes de dados. Com essa demanda em alta, a divisão de semicondutores da Samsung ganhou peso estratégico crescente dentro da companhia, o que abriu espaço para os funcionários dessa área negociarem um acordo de remuneração diferenciado.

Pelo modelo aprovado, a Samsung deve destinar 10,5% do lucro operacional da divisão de semicondutores para formar um fundo de bônus, pago principalmente em ações. O acordo também ajudou a encerrar meses de tensão trabalhista na área e afastou a possibilidade de greve entre os funcionários do setor de chips.

O clima entre os funcionários da divisão de consumo

A insatisfação já havia se manifestado antes do protesto marcado para julho. No mês anterior, funcionários da divisão de consumo compareceram ao trabalho vestidos de preto, em um protesto simbólico contra a disparidade de tratamento entre as divisões. A manifestação em Suwon está sendo organizada pelo sindicato que representa os trabalhadores da divisão DX, com expectativa de reunir milhares de pessoas próximo à sede da companhia, segundo as informações divulgadas.

Os pontos centrais de insatisfação incluem a diferença expressiva entre os valores de bônus das divisões, a percepção de perda de prestígio interno da área de consumo e a sensação de que a valorização trazida pela inteligência artificial está concentrada em uma única parte da empresa, deixando de fora quem trabalha diretamente com os produtos mais conhecidos pelo público, como os celulares Galaxy e as linhas de TV.

O contexto financeiro que aprofunda a comparação

A Samsung deve apresentar forte melhora nos resultados do segundo trimestre de 2026, impulsionada principalmente pela demanda por memória voltada a inteligência artificial. Analistas ouvidos pela Reuters projetam um salto expressivo no lucro operacional da empresa, com a área de chips ocupando papel central nessa recuperação, em um cenário de oferta apertada e preços pressionados para DRAM e NAND no mercado global.

Esse contexto de resultados fortes torna a comparação interna ainda mais sensível: quando uma divisão específica cresce de forma tão acentuada, funcionários de outras áreas tendem a questionar por que o reconhecimento financeiro não é distribuído de forma mais equilibrada dentro da mesma empresa. Ao mesmo tempo, a Samsung enfrenta disputa acirrada por talentos no setor de semicondutores, o que ajuda a explicar o interesse da companhia em proteger essa área estrategicamente, mesmo correndo o risco de alimentar tensão interna nas demais divisões.

O que esse episódio revela sobre o setor de tecnologia

O racha interno na Samsung reflete uma tendência mais ampla do mercado de tecnologia, em que áreas ligadas à inteligência artificial e infraestrutura digital recebem investimento e reconhecimento crescente, enquanto setores tradicionais, mesmo relevantes para a identidade da marca, lidam com margens mais apertadas e crescimento mais lento. Para os funcionários da divisão de consumo, o desafio não é apenas financeiro, mas também simbólico: smartphones, TVs e eletrodomésticos continuam sendo parte central da identidade pública da Samsung, mesmo que a área de semicondutores concentre atualmente boa parte do crescimento e da recompensa interna da companhia.

A manifestação marcada para julho dificilmente resolve a disparidade de uma só vez, mas evidencia que a Samsung precisará equilibrar melhor a comunicação com seus funcionários à medida que o crescimento da empresa se concentra de forma cada vez mais desigual entre suas divisões.