Mat Velloso, ex executivo da Microsoft que também passou por Google DeepMind e Meta, fez uma crítica dura à antiga casa. Para ele, a empresa já tinha perdido a onda da internet, depois a dos celulares e agora estaria repetindo o erro com a IA. A fala ganhou força porque não veio de um observador qualquer, mas de alguém que conhece a máquina por dentro.

E aí fica a pergunta que muita gente talvez já tenha sentido na prática: se o Copilot está em tantos lugares, por que ele ainda não parece indispensável?

O problema não é falta de Copilot

A Microsoft colocou o Copilot em quase tudo. Ele apareceu no Windows, no Microsoft 365, no Office e em outras áreas importantes do ecossistema da empresa.

Só que presença não é a mesma coisa que hábito.

Segundo as críticas de Velloso, menos de 3% dos usuários pagantes usariam o Copilot de forma ativa, mesmo com a ferramenta aparecendo em locais bem visíveis. O Windows Central também apontou que a adoção paga seguia baixa em relação à base total do Microsoft 365, embora a própria Microsoft tenha informado, em seu resultado fiscal mais recente, mais de 20 milhões de assentos pagos do Microsoft 365 Copilot.

É uma diferença importante. A Microsoft mostra crescimento. Os críticos olham para o tamanho da base e perguntam: “mas quantas pessoas realmente usam isso todos os dias?”

E, convenhamos, isso muda bastante a conversa.

Porque uma ferramenta pode estar instalada, pode ter botão bonito, pode aparecer na barra de tarefas… mas, se ela não resolve um problema real no momento certo, vira só mais um ícone na tela.

Quando a IA aparece antes da necessidade

A sensação de parte dos usuários é simples: a IA chegou antes de explicar por que deveria ficar.

Muita gente abriu o computador e encontrou o Copilot ali, presente, insistente, quase como se a Microsoft dissesse: “usa, vai”. Mas tecnologia boa não precisa implorar tanto. Ela entra na rotina porque economiza tempo, tira um peso das costas ou resolve algo que antes era chato.

No caso do Copilot, a promessa era grande:

Na teoria, parece ótimo. Na prática, muita gente ainda não enxergou valor suficiente para mudar o próprio jeito de trabalhar.

E esse é o ponto mais delicado. A Microsoft não está sendo criticada por apostar em IA. Quase toda grande empresa de tecnologia está fazendo isso. A crítica é sobre transformar uma aposta bilionária em uma experiência que o usuário realmente queira usar.

O hardware também entrou nessa conta

A discussão não ficou só no software.

Velloso também criticou a pressão por PCs com NPUs, chips pensados para acelerar tarefas de inteligência artificial nos próprios computadores. A ideia por trás dos Copilot+ PCs era bonita: máquinas preparadas para uma nova fase da IA no Windows.

Mas aí veio a parte menos glamourosa. Segundo ele, fabricantes investiram nesses componentes e descobriram que quase ninguém se importava, porque ainda faltavam usos realmente valiosos no Windows e no Office.

É como comprar uma cozinha profissional e continuar fazendo só café solúvel.

O recurso está ali. A capacidade existe. Mas falta aquele momento em que a pessoa pensa: “agora fez sentido”.

Esse descompasso entre promessa e utilidade pode pesar muito. Ainda mais quando o mercado inteiro está olhando para gastos gigantes com IA e querendo saber quando esse investimento vai virar retorno claro.

A Microsoft ainda tem uma vantagem enorme

Apesar da crítica pesada, seria exagero dizer que a Microsoft está perdida sem volta.

Na verdade, esse é justamente o ponto curioso. A empresa pode estar tropeçando na forma como empurra IA para o usuário comum, mas continua com uma das maiores vantagens do mundo da tecnologia: distribuição.

Windows, Azure, Office, Teams, GitHub, empresas inteiras rodando em cima do ecossistema Microsoft… isso não desaparece de uma hora para outra.

O próprio Velloso, apesar das críticas, também reconheceu que a Microsoft não está “morrendo”. A força dela no mercado corporativo segue enorme, especialmente porque grandes empresas não trocam sistemas críticos como quem troca um aplicativo de celular.

O desafio, então, não é existir. A Microsoft existe demais.

O desafio é fazer a IA parecer menos empurrada e mais útil. Menos vitrine, mais solução. Menos botão novo, mais alívio real para quem trabalha, estuda ou usa o computador todos os dias.

Talvez a virada esteja em ouvir o usuário

A parte mais interessante dessa história é que a Microsoft parece estar revendo algumas prioridades no Windows 11.

Relatos recentes indicam que a empresa passou a dar mais atenção a ajustes antigos pedidos pelos usuários, em vez de insistir apenas em novas camadas de IA. Isso inclui melhorias de interface, desempenho e experiência geral do sistema.

E olha… talvez esse seja o caminho.

Antes de transformar o computador em um assistente inteligente, ele precisa ser um computador bom de usar. Antes de vender o futuro, precisa arrumar o presente. Parece básico, mas às vezes as grandes empresas esquecem disso.

A inteligência artificial pode, sim, mudar muita coisa. Mas ela não se sustenta só no barulho do lançamento. Para virar hábito, precisa aparecer no momento certo, com uma resposta boa e uma utilidade clara.

No fim das contas, o Copilot talvez não precise de mais espaço na tela. Talvez precise de mais motivo para estar ali.

E essa é uma lição que vale muito além da Microsoft: tecnologia só vira revolução quando para de parecer obrigação.