Por fora, os números da Meta seguem impressionantes. Dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, a empresa continua crescendo, faturando bilhões e prometendo acelerar ainda mais seus projetos de inteligência artificial.
Nos bastidores, porém, o clima parece bem menos animador.
Durante uma reunião interna realizada em 2 de junho, o diretor de tecnologia da Meta, Andrew Bosworth, reconheceu que o moral dos funcionários está próximo dos piores níveis já registrados nos mais de 20 anos de história da companhia. Segundo pessoas que acompanharam a conversa, ele comparou o momento atual ao desgaste provocado pelo escândalo Cambridge Analytica.
A fala ajuda a entender por que uma empresa tão lucrativa enfrenta uma crise interna tão forte. Demissões, mudanças obrigatórias de função e monitoramento dos computadores passaram a fazer parte da rotina de milhares de profissionais.
O alerta partiu da própria liderança
Quando um executivo do alto escalão admite que o ambiente está entre os piores da história da empresa, fica difícil tratar a situação como uma insatisfação pontual.
Bosworth teria afirmado que a Meta precisa recuperar parte da cultura que, durante anos, fez tanta gente querer trabalhar na companhia. Entre as promessas estão mais transparência, apoio ao desenvolvimento profissional e novos investimentos em viagens, eventos e espaços de convivência.
A proposta soa contraditória. Enquanto a empresa tenta melhorar o clima com encontros presenciais e benefícios nos escritórios, muitos funcionários ainda nem sabem se continuarão nos mesmos cargos.
Essa insegurança tem uma origem clara. Em maio, a Meta iniciou uma ampla reorganização interna, com planos de reduzir em cerca de 10% sua força de trabalho. No fim de março, a companhia tinha 77.986 funcionários, de acordo com o balanço oficial do primeiro trimestre.
Demissões e transferências elevaram a tensão
Além dos cortes, aproximadamente 7 mil funcionários seriam transferidos para projetos relacionados à inteligência artificial. Em muitos casos, a mudança não seria opcional.
As novas equipes foram criadas para desenvolver agentes de IA capazes de realizar tarefas que hoje dependem de trabalho humano. A empresa também eliminou cargos de liderança e cancelou cerca de 6 mil vagas que ainda estavam abertas.
Dentro da Meta, alguns profissionais passaram a chamar essas transferências de “convocação”. Parte dos funcionários teria sido direcionada para atividades de avaliação e preparação de dados usados no treinamento de modelos.
O desconforto é compreensível. Imagine chegar ao trabalho e descobrir que sua nova função é ajudar a desenvolver uma ferramenta que, no futuro, poderá automatizar atividades semelhantes às suas. É essa sensação que alimenta boa parte da resistência entre os empregados.
A reestruturação também atingiu pessoas diretamente envolvidas no projeto. Emily Dalton Smith, executiva responsável por parte da transformação interna baseada em IA, anunciou sua saída apenas dois meses depois de assumir a nova função. Ela permaneceu temporariamente no cargo para ajudar na transição da equipe.
Monitoramento dos computadores aumentou o desgaste
Como se as demissões e transferências não bastassem, a Meta também passou a enfrentar críticas por causa de um programa interno que registrava movimentos do mouse, cliques e teclas digitadas nos computadores de funcionários nos Estados Unidos.
A ferramenta, chamada Model Capability Initiative, começou a funcionar em abril. Segundo a empresa, o objetivo era usar as interações dos trabalhadores para ensinar modelos de IA a navegar por sistemas digitais como uma pessoa faria.
A reação foi praticamente imediata. Mais de mil funcionários assinaram uma petição contra o monitoramento, enquanto outros levantaram dúvidas sobre os riscos à privacidade e à segurança das informações.
O caso ficou ainda mais delicado quando documentos internos indicaram que dados sensíveis poderiam ser visualizados por outros empregados. Entre eles estariam conversas privadas, avaliações de desempenho e informações inseridas nos computadores corporativos.
Na segunda-feira, 22 de junho de 2026, a Meta anunciou a suspensão temporária do programa enquanto investiga o incidente. A companhia afirmou não ter encontrado sinais de acesso indevido, mas não informou por quanto tempo o sistema permanecerá desativado.
A decisão tem peso, mas talvez não seja suficiente para reduzir o desgaste. Para muitos funcionários, o monitoramento virou o símbolo de uma transformação feita rápido demais e com pouco espaço para questionamentos.
Lucro bilionário contrasta com o ambiente interno
Há um detalhe que torna toda essa história ainda mais incômoda: a Meta não está fazendo essas mudanças para enfrentar uma crise financeira.
No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou receita de US$ 56,31 bilhões, alta de 33% em comparação com o mesmo período do ano anterior. O lucro líquido chegou a US$ 26,77 bilhões, embora parte do resultado tenha sido impulsionada por um benefício tributário.
Ao mesmo tempo, a corrida pela inteligência artificial exige investimentos enormes. A previsão da Meta é gastar entre US$ 125 bilhões e US$ 145 bilhões em 2026, incluindo equipamentos, contratos de financiamento e a construção de novos data centers.
É nesse ponto que a estratégia começa a fazer mais sentido. A empresa continua crescendo, mas precisa abrir espaço no orçamento e reorganizar suas equipes para sustentar uma aposta tecnológica cada vez mais cara.
Para os acionistas, o movimento pode ser visto como uma tentativa de garantir relevância na próxima fase da indústria. Para quem trabalha na companhia, porém, a transformação chegou acompanhada de cortes, vigilância e uma incômoda sensação de que a substituição já começou.
Agora, a Meta tenta reconstruir a confiança sem diminuir o ritmo de sua aposta em IA. A dúvida é se eventos, benefícios e discursos sobre transparência serão suficientes para reparar um ambiente abalado por mudanças tão profundas.
No fim das contas, não basta criar tecnologias capazes de imitar o trabalho humano. A empresa também terá de convencer os próprios funcionários de que ainda existe espaço para eles nessa transformação.