A Meta trabalha no desenvolvimento de um aplicativo de mercados de previsão chamado Arena, segundo reportagem do New York Times repercutida pela Reuters. O projeto teria sido solicitado diretamente por Mark Zuckerberg e colocaria a dona de Facebook, Instagram e WhatsApp em um setor atualmente liderado por plataformas como Kalshi e Polymarket.

O produto, no entanto, ainda não foi anunciado oficialmente. A Meta não respondeu ao pedido de comentário da Reuters, e a agência informou que não conseguiu verificar o relato de forma independente. Neste momento, portanto, o Arena é tratado como um projeto em desenvolvimento.

Arena deve começar com previsões por pontos

A proposta inicial é que o Arena funcione como um aplicativo separado das redes sociais da Meta. Facebook, Instagram, WhatsApp e Messenger, porém, poderiam ser utilizados para apresentar o serviço e atrair usuários.

A primeira versão não deve envolver dinheiro real. Cada participante receberia pontos para fazer previsões sobre acontecimentos futuros, em uma dinâmica semelhante à de um jogo.

As perguntas poderiam envolver resultados de campeonatos, decisões sobre taxas de juros, eleições ou premiações do cinema. O usuário escolheria uma resposta e ganharia ou perderia pontos de acordo com o resultado do evento.

A possibilidade de permitir operações com dinheiro no futuro não teria sido descartada pela Meta. Esse eventual avanço aproximaria o Arena das plataformas de apostas e poderia aumentar a fiscalização sobre o serviço.

O projeto também não seria a primeira experiência da companhia com mercados de previsão. Em 2020, o Facebook lançou o Forecast, aplicativo no qual os participantes utilizavam pontos para responder a perguntas sobre acontecimentos futuros. O serviço também permitia criar previsões e debatê-las com outros usuários.

Mercado movimentou US$ 24 bilhões em um mês

O interesse da Meta acompanha o rápido crescimento dos mercados de previsão desde meados de 2025.

Kalshi e Polymarket movimentaram, juntas, cerca de US$ 24 bilhões em abril de 2026. Em setembro do ano anterior, o volume mensal combinado das duas plataformas ainda estava abaixo de US$ 5 bilhões.

Esportes, política e criptomoedas concentram a maior parte das negociações realizadas nesses serviços. Para a Meta, o setor representa uma oportunidade de explorar um novo tipo de interação com acontecimentos acompanhados diariamente por bilhões de pessoas.

A empresa também partiria de uma posição privilegiada em relação a concorrentes menores. Em abril de 2026, a companhia informou que 3,56 bilhões de pessoas acessavam diariamente pelo menos um dos seus aplicativos.

Mesmo que apenas uma pequena parcela desse público fosse direcionada ao Arena, o novo serviço poderia alcançar rapidamente uma escala significativa. A plataforma permitiria à Meta transformar notícias, competições esportivas e acontecimentos políticos em mercados interativos, criando uma possível nova frente de negócios além da publicidade nas redes sociais.

Como funcionam os mercados de previsão

Para o usuário, a experiência pode se aproximar da oferecida por uma casa de apostas: o participante coloca dinheiro em um resultado incerto e recebe um valor caso acerte. A diferença está no formato adotado pelas plataformas.

Nos mercados de previsão, os usuários compram e vendem contratos vinculados a respostas como “sim” ou “não”. Um contrato negociado por US$ 0,40, por exemplo, representa uma probabilidade estimada de 40%. Caso o evento previsto aconteça, o contrato vencedor passa a valer US$ 1.

Os preços podem variar antes da definição do resultado. Dessa forma, o participante não precisa necessariamente manter a posição até o fim. Ele pode vender o contrato quando a cotação subir ou sair do mercado para limitar uma possível perda.

O funcionamento se aproxima de uma bolsa de valores simplificada. Essa estrutura financeira também está no centro dos debates regulatórios. As empresas do setor afirmam que oferecem contratos e ferramentas de previsão, enquanto autoridades avaliam se a atividade reproduz elementos essenciais de uma aposta.

Também existem preocupações relacionadas ao comportamento compulsivo, à manipulação dos mercados e ao uso de informações privilegiadas. Segundo a Reuters, operações realizadas pouco antes de decisões políticas inesperadas nos Estados Unidos já provocaram questionamentos sobre possíveis vantagens obtidas por participantes anônimos.

Uso de dinheiro dificultaria operação no Brasil

Uma versão do Arena baseada apenas em pontos enfrentaria menos obstáculos regulatórios no Brasil. O cenário mudaria caso a Meta permitisse apostas ou negociações envolvendo dinheiro real.

Em abril de 2026, o governo brasileiro determinou o bloqueio de plataformas de mercados preditivos que ofereciam contratos relacionados a política, esportes, cultura, entretenimento e outros temas. De acordo com a comunicação oficial, 28 serviços foram bloqueados pela Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel.

Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas concluiu que essas plataformas podem reproduzir características essenciais das apostas de quota fixa. O documento recomendou o bloqueio de serviços que oferecessem contratos sobre eventos esportivos e outros acontecimentos sem natureza econômica ou financeira.

A legislação brasileira permite apostas regulamentadas sobre eventos esportivos reais e jogos online, mas não autoriza apostas livres relacionadas a eleições, decisões políticas, mortes de celebridades ou acontecimentos sociais.

A disponibilidade do Arena no país dependeria, portanto, do formato adotado pela Meta. Um aplicativo gratuito, baseado apenas em pontos e sem prêmios financeiros, teria características diferentes das plataformas em que os participantes arriscam dinheiro.

Projeto coloca a Meta em um setor sensível

O Arena pode ser lançado inicialmente como uma plataforma de palpites e pontuações. A eventual inclusão de dinheiro real, no entanto, transformaria o projeto em uma operação mais complexa e sujeita a restrições legais.

Para a Meta, o aplicativo representa uma oportunidade de entrar em um mercado em expansão utilizando a audiência de suas próprias plataformas. Para autoridades e usuários, o projeto levanta discussões sobre comportamento compulsivo, proteção de dados, manipulação de resultados e limites regulatórios.

O futuro do Arena dependerá tanto da decisão da Meta de lançar oficialmente o produto quanto da definição sobre até onde a empresa pretende avançar no uso de transações financeiras.