Do streaming de música à gestão de pessoas: o fundador da Superplayer, Gustavo Goldschmidt, agora mira a ineficiência do departamento pessoal. Sua nova aposta, a HRTech Kiip, promete desmantelar a hegemonia das planilhas.

No cenário incipiente do streaming de áudio dos anos 2010, a Superplayer tentou sua fatia de mercado, chegando a receber investimento da Movile. Agora, seu cofundador, Gustavo Goldschmidt, pivota para um novo desafio: a Kiip, uma HRTech que nasce com um aporte de R$ 3,5 milhões da própria Superplayer, buscando otimizar processos de RH para pequenas e médias empresas.

A Fragilidade das Planilhas: O Calcanar de Aquiles do Departamento Pessoal

A transição de um negócio B2C de streaming para o universo B2B de softwares de departamento pessoal pode parecer um salto quântico, mas, na visão de Gustavo Goldschmidt, é uma evolução lógica. O empreendedor, que já navegou pelas complexidades do mercado de mídia e vídeo, percebeu que havia um potencial subutilizado dentro da própria Superplayer: uma equipe de produto e tecnologia com expertise em usabilidade, forjada na competição direta com gigantes da tecnologia. Essa base, segundo ele, estava pronta para um novo desafio, um que fosse além do que a empresa havia conquistado até então.

A Kiip não busca reinventar a roda em todas as frentes do RH. Pelo contrário, sua estratégia é cirúrgica: focar na parte menos "glamourosa" do setor, o departamento pessoal. Enquanto muitas HRTechs se perdem em módulos de gestão de performance ou recrutamento, a Kiip mergulha na realidade crua das operações diárias que, surpreendentemente, ainda dependem de planilhas. Essa dependência não é apenas uma questão de conveniência; é uma vulnerabilidade sistêmica. Planilhas são propensas a erros humanos, difíceis de escalar e um pesadelo para a integridade dos dados, especialmente em um contexto onde a precisão é fundamental para a conformidade legal e a satisfação dos colaboradores.

O público-alvo da Kiip são empresas de médio porte, com 50 a 350 colaboradores, que frequentemente terceirizam o processamento da folha de pagamento para escritórios de contabilidade. Essas organizações enfrentam um gargalo crítico: a conciliação de variáveis complexas e dinâmicas do dia a dia. Pense em férias, controle de ponto, descontos de benefícios, múltiplos vínculos empregatícios e todas as suas nuances. Gerenciar isso manualmente é um convite ao caos operacional e a potenciais passivos trabalhistas. A Kiip se posiciona como a ponte para essa lacuna, automatizando cada módulo e garantindo a integração fluida com sistemas contábeis, seja via API ou, em cenários mais legados, através de planilhas estruturadas – um ponto que exige atenção redobrada na arquitetura de segurança.

O projeto Kiip começou a tomar forma em 2023, operando em um modo beta fechado com oito empresas, denominadas "design partners". A escolha de clientes pagantes desde o início não foi por acaso; é uma estratégia para garantir que as exigências e o feedback sejam reais e que o produto seja moldado por necessidades de mercado genuínas, e não por suposições. Em 2024, a Kiip acelerou seu desenvolvimento, alocando parte do time de marketing e comercial da Superplayer para impulsionar a nova venture. Atualmente, a Kiip opera com uma equipe própria de 12 profissionais, todos sênior e distribuídos em mais de 15 estados, seguindo um modelo 100% remoto, uma herança da pandemia que otimiza custos e acesso a talentos.

Os resultados iniciais são promissores. A Kiip encerrou 2025 com mais de 100 clientes e aproximadamente 8 mil colaboradores gerenciados em sua plataforma, com um ticket médio mensal de R$ 800 por empresa. A meta para o ano corrente é ambiciosa, mas calculada: atingir 300 clientes, o que elevaria o MRR (Receita Recorrente Mensal) para perto de R$ 300 mil e, segundo Goldschmidt, permitiria à empresa atingir o breakeven. A visão de longo prazo projeta um ARR (Receita Recorrente Anual) acima de R$ 20 milhões, com margem líquida entre 30% e 40% – números que, se concretizados, indicam uma operação robusta e eficiente.

A abordagem de vendas da Kiip foge do discurso tradicional dos SaaS, especialmente em um setor que Goldschmidt descreve como "quadrado". A ideia é trazer a "pegada B2C do streaming" para a aplicação, focando em um SaaS moderno que seja, nas palavras do CEO, "prazeroso de usar". Essa filosofia, que prioriza a experiência do usuário e a simplicidade, tem gerado frutos: uma taxa de conversão de 50% nas reuniões de venda e um churn que o fundador classifica como "baixíssimo". A comparação com a Bling, um ERP focado em PMEs que democratizou o acesso a sistemas de gestão e foi adquirido pela Locaweb, não é acidental. Goldschmidt foi conselheiro da Bling e vê na Kiip a oportunidade de replicar esse sucesso no departamento pessoal, com a vantagem de um ticket médio maior e uma abordagem mais consultiva com os clientes.

Desvendando a Arquitetura da Kiip: Automação, APIs e a Segurança Crítica dos Dados de RH

A arquitetura subjacente da Kiip é projetada para desmantelar a complexidade inerente ao departamento pessoal, que muitas vezes se manifesta em silos de dados e processos manuais. A promessa de automatizar cada módulo – desde o registro de ponto e gestão de férias até o cálculo de benefícios e a complexa administração de múltiplos vínculos empregatícios – exige uma infraestrutura de software robusta e modular. A integração com sistemas contábeis externos é um ponto crítico. Idealmente, essa integração ocorre via API (Application Programming Interface), garantindo uma troca de dados segura, padronizada e em tempo real. No entanto, a realidade do mercado brasileiro, com sua miríade de sistemas legados, muitas vezes exige a flexibilidade de integrar via planilhas. Este último método, embora prático para a compatibilidade, introduz vetores de risco que precisam ser mitigados com validações rigorosas e protocolos de segurança para evitar a corrupção de dados ou vazamentos.

A decisão de operar em bootstrapping, com um investimento inicial de R$ 3,5 milhões da Superplayer, reflete uma filosofia de desenvolvimento e crescimento cautelosa. Goldschmidt enfatiza que o roteiro do produto é guiado estritamente pelas necessidades dos clientes, e não por modismos tecnológicos ou pela pressão de investidores para "colocar IA em algum lugar só para dizer que tem IA e recaptar". Essa abordagem pragmática é um contraponto bem-vindo em um ecossistema de startups frequentemente seduzido por tendências superficiais. Significa que os recursos são alocados para construir funcionalidades que realmente agregam valor e resolvem problemas reais, em vez de perseguir inovações sem base sólida.

A estratégia de crescimento da Kiip é focada na "zona de máxima eficiência", o que implica um controle rigoroso sobre o Custo de Aquisição de Clientes (CAC) e um Retorno sobre o Investimento (ROI) saudável. Em termos de infraestrutura, isso se traduz em escolhas tecnológicas que priorizam a escalabilidade e a resiliência sem incorrer em custos exorbitantes. A equipe, composta por 12 profissionais sênior operando remotamente, é um indicativo de uma estrutura enxuta e altamente qualificada, capaz de entregar um produto de alta qualidade com menor sobrecarga operacional. A experiência do usuário, inspirada na fluidez dos serviços B2C de streaming, sugere um investimento significativo em design de interface e experiência (UI/UX), garantindo que a complexidade do departamento pessoal seja abstraída por uma interface intuitiva e "prazerosa de usar".

A segurança dos dados, especialmente em um domínio tão sensível como o departamento pessoal, é uma preocupação central. A Kiip lida com informações pessoais, financeiras e contratuais de milhares de colaboradores. A arquitetura deve incorporar princípios de segurança por design, incluindo criptografia de dados em trânsito e em repouso, controle de acesso baseado em funções (RBAC) e auditorias regulares. A migração de dados de planilhas legadas para um sistema estruturado é um processo crítico que exige validação de integridade e saneamento de dados para evitar a propagação de erros ou inconsistências. A promessa de um churn "baixíssimo" não é apenas um indicador de satisfação do cliente, mas também um testemunho da estabilidade e confiabilidade do sistema, elementos cruciais para a retenção em um mercado onde a confiança é primordial.

Embora uma captação futura de investimentos não seja descartada, Goldschmidt deixa claro que ela serviria para "antecipar roadmap", e não para "cobrir prejuízo". Essa postura reflete uma maturidade na gestão e um foco na sustentabilidade do negócio, evitando a armadilha de queimar capital excessivamente para um crescimento artificial. A Kiip busca construir um produto sólido que gere valor real, crescendo de forma eficiente e se tornando uma empresa rentável por mérito próprio, sem depender de injeções constantes de capital de risco para mascarar ineficiências operacionais ou falhas na arquitetura de produto.

A Kiip, com sua abordagem pragmática e foco no cliente, segue sua rota de crescimento, buscando consolidar sua posição no mercado de HRTech sem desviar para modismos tecnológicos.