O lançamento da Keeta no Rio de Janeiro, que prometia agitar o mercado de delivery, virou fumaça. Evento cancelado, operações adiadas e, o pior, centenas de funcionários desligados.

A gigante chinesa Meituan, através de sua subsidiária Keeta, planejava uma expansão agressiva no Brasil após consolidar sua base em São Paulo. Contudo, a entrada no mercado carioca, vista como o próximo grande passo, encontrou um obstáculo inesperado, forçando a empresa a recalibrar sua rota e cortar pessoal.

O Gargalo da Expansão: Por Que o Rio Virou um Benchmark Negativo?

Para quem acompanha o mercado de tecnologia, a notícia da Keeta é como ver um processador de última geração superaquecer antes mesmo de rodar o primeiro benchmark. A expectativa era alta: um evento de lançamento no Rio de Janeiro, com a imprensa a postos para cobrir a chegada de um novo player que prometia mais concorrência e, teoricamente, melhores condições para consumidores, restaurantes e entregadores. O convite, que chegou às redações, falava em “tecnologia de ponta e suporte humano”, um combo que, na teoria, deveria ser um divisor de águas.

Mas a realidade foi bem mais dura. Um dia antes do grande dia, o evento foi cancelado sem maiores explicações, e a estreia no território fluminense, adiada por tempo indeterminado. O que parecia um simples contratempo revelou-se um problema de arquitetura muito mais profundo. Uma semana depois, a bomba: demissões em massa. Estima-se que cerca de 200 funcionários, muitos deles recém-contratados e com a promessa de um futuro promissor na empresa, foram desligados. É o tipo de crash que afeta não só a reputação da marca, mas a vida de centenas de pessoas que apostaram suas fichas nesse novo hardware.

Um vídeo que circulou mostra a indignação de uma funcionária que largou outro emprego pela proposta da Keeta, evidenciando o impacto humano dessa decisão abrupta. Isso não é apenas um número no balanço; é a instabilidade que um mercado dominado por poucos players pode gerar. A promessa de um “mercado livre e aberto” se chocou com a dura realidade de um ecossistema já consolidado, onde a entrada de um novo competidor não é tão simples quanto plugar um novo componente.

Análise da Ficha Técnica: Acordos de Exclusividade e a Batalha pelo Silício do Delivery

A Keeta não hesitou em apontar o dedo para os concorrentes, iFood e 99Food, como os grandes responsáveis pelo seu motor ter engasgado no Rio. Segundo Tony Qiu, CEO global da Keeta, o problema não é falta de potência, mas um gargalo na banda: uma quantidade expressiva de restaurantes na região já possui acordos de exclusividade com as plataformas dominantes. Isso significa que, mesmo com um app funcional e uma proposta de valor, a Keeta simplesmente não consegue listar os estabelecimentos mais procurados, deixando seus consumidores sem opções e, consequentemente, sem motivos para usar o serviço.

Qiu foi além, acusando o iFood de descumprir uma decisão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Para quem não está por dentro dos detalhes, o Cade havia imposto restrições claras: o iFood não poderia fechar contratos de exclusividade com redes de restaurantes que possuíssem mais de 30 lojas, nem renovar cláusulas de exclusividade por mais de dois anos com estabelecimentos menores. É uma tentativa de equalizar o campo de jogo, evitando que um player domine completamente o fluxo de dados.

A 99Food também entrou na mira, com a Keeta alegando que a plataforma teria fechado acordos com os principais restaurantes cariocas que, embora permitam parcerias com outras plataformas, excluem especificamente a Keeta. É como se o firmware de compatibilidade fosse seletivo, bloqueando um único hardware específico. Essa é uma jogada agressiva que, se comprovada, mostra a ferocidade da guerra por cada megabyte de mercado.

A Keeta adiou sua entrada no Rio de Janeiro por tempo indeterminado e realizou demissões em massa na região. Para uma análise mais aprofundada sobre a situação, confira "O Revés da Keeta no Rio: Desafios Éticos e Concorrência", onde discutimos os impactos éticos dessa situação e suas implicações no mercado de delivery.