O Google anunciou um investimento de US$ 75 milhões na A24, produtora independente conhecida por filmes autorais como Moonlight, Lady Bird e Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. O acordo vai além do aporte financeiro: a parceria prevê a integração de ferramentas de inteligência artificial do Google em diferentes etapas das produções do estúdio.
A proposta, pelo menos neste primeiro momento, não é criar filmes inteiros a partir de comandos de texto. O foco está em aplicações de bastidores que possam apoiar as equipes criativas sem interferir na identidade artística das obras.
IA como ferramenta de apoio, não de substituição
Um representante da A24 deixou claro que as ferramentas desenvolvidas em parceria com o Google não se assemelham aos geradores de vídeo que proliferaram nas redes sociais. A ideia é oferecer recursos discretos para fases específicas da produção, como a criação de storyboards, a visualização prévia de enquadramentos, a organização de referências visuais e a experimentação de conceitos ainda na pré-produção. Em outras palavras, a IA seria usada para dar forma às ideias dos diretores, não para substituir o trabalho de roteiristas, atores ou cineastas.
Por que a A24?
A escolha faz sentido quando se observa o histórico da produtora. A A24 construiu sua reputação apostando em projetos autorais, muitas vezes realizados com orçamentos menores do que os grandes estúdios tradicionais. O catálogo inclui obras premiadas como Aftersun, Minari e O Brutalista, e o estúdio ficou conhecido por revelar cineastas como Greta Gerwig, Robert Eggers e Ari Aster antes de eles alcançarem um público mais amplo.
Para o Google, trabalhar com uma produtora que define tendências pode funcionar como vitrine. Se as ferramentas ajudarem nas produções sem comprometer a identidade dos filmes, outros estúdios podem se sentir mais confortáveis para adotar soluções semelhantes.
Resistência e dúvidas permanecem
Mesmo com o anúncio enquadrado como uma oportunidade criativa, o uso de IA no cinema segue gerando resistência. Artistas temem que a tecnologia seja usada para reduzir equipes, reproduzir estilos sem autorização ou substituir profissionais especializados.
Kane Parsons, jovem diretor responsável por levar o universo de Backrooms a Hollywood, já criticou publicamente determinados usos da inteligência artificial, classificando a tecnologia como prejudicial em certas situações. A contradição é evidente: a A24 precisará demonstrar que a parceria não apaga o elemento humano que tornou seus filmes reconhecíveis.
A aceitação também dependerá de transparência. Diretores, roteiristas e artistas visuais vão querer saber como seus trabalhos e referências criativas serão utilizados pelas ferramentas.
Investimento não significa aquisição
O aporte de US$ 75 milhões não representa uma compra. A A24 permanece independente e responsável por suas próprias decisões criativas. O Google ganha um parceiro relevante para testar suas tecnologias em ambiente de alta exigência artística, enquanto o estúdio obtém recursos para novos projetos sem se vincular à estrutura de um grande conglomerado.
A parceria chega em momento de expansão da A24, que além dos filmes autorais trabalha em projetos de maior escala, como a adaptação live-action de Elden Ring, dirigida por Alex Garland.
A grande questão que fica não é o que a IA é capaz de fazer, mas como ela será usada — e quem continuará tomando as decisões criativas.