O mercado de delivery de alimentos no Brasil perde mais um player de peso. A Trela, startup que atraiu investimentos robustos, incluindo do SoftBank, anunciou o encerramento de suas operações.

Após seis anos de atuação e uma tentativa de reestruturação estratégica, a companhia comunicou a decisão a clientes e parceiros nesta quinta-feira, citando a impossibilidade de garantir os recursos necessários para a continuidade e expansão de suas atividades.

Crise no E-commerce Alimentar: Lições do Adeus da Trela para Investidores

A notícia do encerramento das operações da Trela ressoa como um alerta significativo para o ecossistema de startups de delivery de alimentos no Brasil.

Este movimento se alinha a uma tendência preocupante, onde outras empresas do segmento, como Justo e Mercado Diferente, também sucumbiram nos últimos anos.

O cenário pós-pandemia, com o retorno dos consumidores aos supermercados físicos, expôs a fragilidade de modelos de negócio que não conseguiram atingir a rentabilidade esperada.

A dificuldade em atrair novas rodadas de investimento, mesmo para companhias com capital inicial robusto, sublinha a cautela dos investidores em um mercado de margens apertadas e alta competitividade.

Para o setor de venture capital, o fechamento da Trela, que tinha o SoftBank em seu cap table, reforça a necessidade de uma análise ainda mais rigorosa sobre a viabilidade de longo prazo de modelos de negócio intensivos em capital como a venture capital.

A busca por um product-market fit sustentável e a capacidade de gerar lucratividade tornam-se critérios ainda mais decisivos para a sobrevivência e escalabilidade de startups.

Da Otimização Logística à Disputa Judicial: Os Desafios Operacionais e Legais da Trela

Para tentar reverter o quadro e otimizar a eficiência operacional, a Trela havia implementado um modelo logístico inovador.

A empresa rompeu com o tradicional varejo baseado em estoque parado, estabelecendo um centro de distribuição próprio na Lapa, em São Paulo.

Lá, operava com um sistema de entregas just in time, focado em reposições programadas e parcerias estratégicas com fornecedores, visando reduzir custos e aumentar a agilidade. Em um contexto mais amplo, estratégias como a da trela e outras startups de logística têm sido cada vez mais necessárias para o setor de e-commerce.

No seu cap table, a Trela contava com investidores de peso. Em 2021, garantiu R$ 16 milhões em uma rodada seed liderada por Kaszek e General Catalyst.

No ano seguinte, ainda impulsionada pelo boom da pandemia, a startup levantou expressivos US$ 25 milhões com o SoftBank, demonstrando a confiança inicial do mercado em sua tese.

Contudo, a jornada da Trela também foi marcada por confrontos no mercado. Em um movimento ousado, a empresa protocolou uma denúncia no Ministério Público de São Paulo contra a concorrente Shopper.

A acusação era de práticas anticoncorrenciais, alegando que a Shopper, investida pelo iFood, estaria oferecendo exclusividade a fornecedores em troca de altos valores, impedindo-os de vender para outras plataformas.

Este embate legal, que remetia a casos anteriores envolvendo grandes players do setor como na justiça e concorrência no setor de tecnologia, teve um desfecho desfavorável para a Trela em janeiro, com o arquivamento do processo pelo MP, que sugeriu encaminhar a queixa ao Cade.

Apesar dos desafios e do desfecho, os fundadores Guilherme Nazareth, João Jonk e Felipe Araújo, expressaram orgulho pelo impacto gerado.

Eles destacaram a construção de um serviço inovador, o crescimento de fornecedores parceiros e o atendimento a mais de 100 mil pessoas, deixando uma marca no mercado de delivery.

Apesar dos esforços e da busca por um modelo de negócio sustentável, a Trela não conseguiu garantir a captação de recursos essenciais para sua continuidade.