Entrevista Exclusiva

O futuro dos Hubs, IA e o fim do "discurso de diversidade": Uma conversa com os fundadores da SBI

Por Luan Andrade • 30 de abril de 2026
Stefano e Helena Levorato, fundadores da SBI
Stefano e Helena Levorato | Foto: Acervo Pessoal / Divulgação SBI

O ecossistema brasileiro de inovação vive um paradoxo numérico. Se por um lado o país comemora a marca histórica de 20 mil startups ativas, por outro, esbarra em uma taxa de mortalidade onde 70% dessas empresas fecham as portas em menos de três anos. O gargalo, ao que tudo indica, deixou de ser a falta de criatividade e passou a ser a ausência de maturidade estratégica e diversidade genuína.

Para decodificar esse cenário, o BitFlow Tech conversou com exclusividade com Stefano Levorato e Helena Levorato, fundadores da Sociedade Brasileira de Inovação (SBI). Recém-premiados pelo prestigioso Global Innovation Institute (GInI) como “Facilitadores de Inovação em Destaque”, eles lideram movimentos estruturais no país — desde a atração de chancelas globais até o impulsionamento de redes como o "Mulheres que Inovam", que já alcançou mais de 3 mil profissionais em apenas um ano.

Na entrevista a seguir, os especialistas detalham como a Inteligência Artificial vai reconfigurar os espaços físicos de trabalho, por que o discurso corporativo de inclusão precisa virar meta e o que é necessário para uma startup brasileira competir em escala global. Para entender mais sobre a importância dos hubs, leia "O fim do lobo solitário".

Stefano Levorato: O Sistema Nervoso da Nova Economia

Retrato de Stefano Levorato
Stefano Levorato | Foto: Acervo Entrevistado
BitFlow Tech Você mencionou recentemente que os Hubs são o "sistema nervoso da nova economia". Como você visualiza a evolução desses espaços nos próximos 5 anos, especialmente com a integração massiva de Inteligência Artificial nos processos produtivos?
Stefano Levorato: Os hubs estão deixando de ser simples espaços físicos de coworking para se tornarem infraestruturas vivas de conexão entre talento, capital e mercado. Nos próximos cinco anos, a integração da IA vai acelerar esse processo e os hubs vão se expandir cada vez mais para ambientes virtuais, comunidades, plataformas e redes que operam sem fronteira geográfica.

Mas isso não significa o fim do espaço físico, e sim que ele vai assumir outras prioridades. O escritório compartilhado qualquer um oferece, mas o que o espaço físico passa a entregar de forma insubstituível é a conexão humana, o encontro, a conversa não planejada, a confiança que só se constrói presencialmente. Os hubs que entenderem essa combinação entre presença física qualificada e alcance virtual vão definir o que é infraestrutura de inovação na próxima década.
BitFlow Tech O Brasil superou a marca de 20 mil startups ativas. A qualidade técnica e de gestão dessas empresas está acompanhando esse volume numérico?
Stefano Levorato: O volume é uma boa notícia, mas não podemos confundir quantidade com maturidade. O Brasil tem um talento real para identificar oportunidades e para criar negócios. Temos empreendedores que enxergam problemas onde outros não estão olhando, mas 70% dessas empresas fecham em menos de três anos. O gargalo não é criatividade, nem vontade, é conhecimento estratégico sobre o universo da inovação, sobre como escalar, como competir, como se posicionar em mercados exigentes.

O país ainda forma poucos experts. Não basta ter startups, precisamos ter pessoas preparadas para levá-las adiante e com conhecimentos e ferramentas adequadas para fazer os negócios prosperarem. Para mais sobre a inovação nas startups, confira nosso texto sobre "IA e o Crescimento Sustentável".
"Não basta ter startups, precisamos ter pessoas preparadas para levá-las adiante."
BitFlow Tech Com o recente reconhecimento do Global Innovation Institute (GInI), quais são os próximos passos da SBI para conectar o mercado brasileiro ao cenário global?
Stefano Levorato: Um reconhecimento internacional como este traz uma exposição muito importante. Recebemos contatos de empresas e profissionais de diversas partes do mundo querendo conhecer o nosso ecossistema. Como estamos recebendo esse reconhecimento, queremos que outras empresas no Brasil tenham as mesmas oportunidades.

Por isso, vamos trazer para o Brasil as certificações do Global Innovation Institute para que os profissionais e empresas brasileiras possam se balizar por um padrão internacional que até então tinha pouca presença no nosso país. Com acesso a esse modelo, passaremos a falar a mesma língua que o mercado global. Isso cria repercussão internacional para quem está aqui, abre portas para redes de investimento e posiciona nossas startups com a credibilidade que merecem para competir além das nossas fronteiras.
Stefano Levorato palestrando
Stefano Levorato em evento do setor | Foto: Divulgação SBI

Helena Levorato: Liderança, Inclusão e o "Hard Tech"

Retrato de Helena Levorato
Helena Levorato | Foto: Acervo Entrevistada
BitFlow Tech O projeto "Mulheres que Inovam" alcançou 3 mil mulheres em apenas um ano. Qual foi o maior desafio cultural que você encontrou ao iniciar esse movimento e qual é a meta para 2026?
Helena Levorato: Quando começamos, o maior desafio foi cultural mesmo. Foi difícil constatar o quanto muitas mulheres ainda não se reconheciam como protagonistas da própria trajetória, especialmente dentro de ambientes de inovação. Fica claro que nunca foi falta de capacidade, mas era falta de referências, de espaço seguro e, principalmente, de pertencimento. Muitas chegam dizendo “eu não sou da inovação” e, ao longo da jornada, entendem que inovar também é sobre resolver problemas reais com a bagagem que já têm.

Alcançar mais de 3 mil mulheres em pouco mais de um ano mostra que existe uma demanda reprimida enorme. Para 2026, queremos expandir essa rede para novas cidades, fortalecer as lideranças locais e transformar o projeto em uma rede ainda mais impactante, onde essas mulheres não só participem, mas também liderem e criem novos movimentos. Para saber mais sobre como estamos moldando o futuro, consulte também nosso artigo sobre "Crescimento Sustentável e Inovação".
BitFlow Tech O gap de mulheres em cargos de decisão no setor de tecnologia ainda é expressivo. Qual é o passo fundamental para que as empresas saiam do "discurso de diversidade" e passem para a "prática de inclusão"?
Helena Levorato: O ponto de virada acontece quando a diversidade deixa de ser um valor institucional bonito e passa a ser uma responsabilidade estratégica de todos. Enquanto...