O Google acaba de ligar os Estados Unidos à Europa por um caminho que a maioria das pessoas nunca vai ver: um cabo de fibra óptica de 7 mil quilômetros no fundo do oceano Atlântico. Batizado de Nuvem, o sistema foi conectado nesta terça-feira (21) à cidade de Sines, em Portugal, e passa a transportar dados entre o país europeu e a costa leste dos Estados Unidos.
A conexão acontece em um momento em que a demanda por serviços de nuvem e inteligência artificial cresce em ritmo acelerado, exigindo cada vez mais capacidade para movimentar dados entre continentes. Cabos submarinos como o Nuvem são responsáveis por mais de 95% do tráfego global de internet, segundo o próprio Google.
Para quem usa serviços do Google, da Microsoft ou de qualquer plataforma de IA hospedada na Europa, essa infraestrutura invisível é o que garante velocidade e estabilidade na conexão. Quanto mais rotas existem entre continentes, menor o risco de lentidão ou interrupção quando um cabo falha.
A seguir, entenda como funciona o novo cabo, por que essa expansão está acontecendo agora e o que isso representa para Portugal no mapa da tecnologia mundial.
O que é o cabo Nuvem e como ele funciona
O cabo Nuvem é um sistema de fibra óptica submarina que liga Myrtle Beach, na Carolina do Sul (EUA), a Sines, no sul de Portugal, passando pelas Bermudas e pelos Açores. O nome faz referência à palavra portuguesa para "cloud", em alusão direta à computação em nuvem.
Segundo o Google, o sistema tem cerca de 7.000 quilômetros de extensão e é formado por 16 pares de fibras ópticas, com capacidade total projetada de 384 terabits por segundo. Giorgia Abeltino, diretora de Assuntos Governamentais e Políticas Públicas do Google Cloud para a região da Europa, Oriente Médio e África (EMEA), afirmou que o projeto integra uma estratégia mais ampla de fortalecimento da infraestrutura digital entre os dois continentes.
Na prática, isso significa uma nova rota física e independente para o tráfego de dados que hoje já circula entre EUA e Europa, reduzindo a dependência de um número limitado de cabos existentes.
Por que a expansão de cabos submarinos está acelerando agora
A corrida por mais cabos submarinos não é coincidência. Modelos de inteligência artificial e serviços de nuvem consomem volumes de dados muito maiores do que aplicações tradicionais, e isso pressiona toda a infraestrutura que sustenta a internet, dos data centers aos cabos que atravessam oceanos.
Empresas de tecnologia como Google, Meta e Microsoft têm investido diretamente na construção desses sistemas nos últimos anos, em vez de depender apenas de consórcios de telecomunicações, como era comum no passado. Isso dá a essas empresas mais controle sobre capacidade, prioridade de tráfego e velocidade de expansão.
Soma-se a isso uma preocupação crescente com a segurança dessas estruturas. Incidentes no mar Báltico levaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a lançar, em janeiro de 2025, a operação "Baltic Sentry", voltada à vigilância de infraestruturas submarinas críticas na região.
Portugal como novo polo de dados e inteligência artificial
O cabo Nuvem não é o primeiro projeto do tipo em Portugal, mas reforça uma tendência já em curso. O país conta com outros dois sistemas de alta capacidade: o Equiano, também do Google, que liga Portugal à África do Sul, e o EllaLink, que conecta Sines diretamente ao Brasil.
Durante a cerimônia de apresentação do novo cabo, o ministro da Reforma do Estado e da Inovação de Portugal, Gonçalo Matias, afirmou que o projeto faz parte de uma estratégia nacional para transformar o país em um polo de data centers e inovação em IA, além de reforçar a resiliência digital da Europa.
A localização atlântica de Portugal, somada à disponibilidade de energia renovável de fontes hidrelétrica, solar e eólica, tem atraído investimentos como o Start Campus, em Sines, projeto de data center com capacidade prevista de 1,2 gigawatt e ligação com investimentos da Microsoft em infraestrutura de IA.
O cabo Nuvem marca mais um passo do Google na disputa por infraestrutura física para sustentar a era da inteligência artificial. Com 7.000 quilômetros de fibra óptica ligando Sines aos Estados Unidos, o projeto reforça Portugal como ponto estratégico de conexão entre continentes e amplia a capacidade de tráfego de dados entre Europa e América do Norte.
O movimento também confirma uma tendência maior: grandes empresas de tecnologia estão cada vez mais dispostas a construir e controlar diretamente a espinha dorsal da internet, dos cabos submarinos aos data centers. Google conecta assim mais um elo entre Portugal e EUA, e a tendência é que novos projetos semelhantes surjam nos próximos anos.
Você já sabia que a maior parte do tráfego da internet passa por cabos no fundo do oceano? Conta pra gente nos comentários.