Parecia uma parceria encerrada para sempre. Depois de abandonar os processadores da Intel nos Macs e apostar tudo nos chips Apple Silicon, a Apple agora pode se aproximar novamente da antiga fornecedora.
Desta vez, porém, a conversa é outra.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a Apple concordou em trabalhar com a Intel no desenvolvimento e na fabricação de chips em território americano. A declaração movimentou o mercado e reforçou uma possibilidade que já circulava nos bastidores havia algumas semanas. Ainda assim, até o momento do anúncio, Apple e Intel não haviam confirmado publicamente os detalhes do acordo.
Se a parceria realmente avançar, ela poderá mexer não apenas com a produção de iPhones, iPads e Macs, mas também com a disputa global pelo controle da indústria de semicondutores.
Apple e Intel não retomarão a antiga relação
Quem teve um Mac entre 2006 e 2020 provavelmente se lembra do selo “Intel Inside”. Durante cerca de 15 anos, os computadores da Apple utilizaram processadores desenvolvidos pela Intel.
Essa história começou a mudar em 2020, quando a Apple apresentou o chip M1 e iniciou a transição para processadores próprios. Aos poucos, os Macs com Intel desapareceram das lojas, abrindo espaço para as famílias M1, M2, M3 e suas sucessoras.
Por isso, a nova aproximação não significa que a Apple pretende abandonar o Apple Silicon ou voltar a instalar processadores Intel em seus aparelhos.
A ideia é que a Apple continue projetando os próprios chips, enquanto a Intel utilizaria suas fábricas para produzi-los. É o chamado modelo de fundição, no qual uma empresa cria o projeto e contrata outra para transformar esse desenho em componentes físicos.
Em outras palavras, a Intel não necessariamente decidiria como o chip funcionaria. Ela entraria como parceira industrial, fornecendo tecnologia e capacidade de fabricação nos Estados Unidos.
Por que a Apple procura uma nova fabricante?
Hoje, a Apple depende fortemente da taiwanesa TSMC para produzir seus processadores mais avançados. A fabricante é uma referência mundial e também atende empresas como Nvidia e AMD.
O problema é que existe uma fila cada vez mais disputada por espaço em suas fábricas.
O avanço acelerado da inteligência artificial aumentou a procura por chips de alto desempenho. Grandes empresas passaram a encomendar volumes enormes de componentes para servidores, computadores e centros de dados, pressionando a capacidade disponível.
Nesse cenário, contar com uma segunda fabricante pode trazer algumas vantagens para a Apple:
reduzir o risco de atrasos ou falta de componentes;
negociar com mais de uma fornecedora;
ampliar a produção dentro dos Estados Unidos;
diminuir a dependência de uma região considerada sensível geopoliticamente.
Uma reportagem publicada em maio já apontava a existência de um entendimento preliminar para que a Intel fabricasse parte dos chips desenvolvidos pela Apple. O anúncio de Trump, feito em junho, deu mais força à história, embora os detalhes comerciais ainda não tenham sido apresentados pelas empresas.
A Intel pode ganhar muito com esse acordo
Para a Intel, conquistar a Apple como cliente seria quase como receber um enorme selo de aprovação.
A companhia tenta há anos fortalecer seu negócio de fabricação de chips para outras empresas. O desafio é convencer clientes exigentes de que suas tecnologias conseguem competir com os processos avançados da TSMC.
E poucas clientes são tão exigentes quanto a Apple.
A dona do iPhone trabalha com produtos vendidos em grande escala e costuma cobrar eficiência energética, desempenho elevado e controle rigoroso de qualidade. Produzir chips para ela poderia melhorar a imagem das fábricas da Intel e atrair novos contratos.
Foi justamente essa expectativa que animou os investidores. As ações da Intel subiram com força após a declaração de Trump, enquanto os papéis da Apple tiveram uma valorização mais discreta. Os percentuais variaram ao longo do pregão, com diferentes veículos registrando altas próximas ou superiores a 7% para a Intel.
Ainda existe, claro, uma diferença entre anunciar uma parceria e produzir milhões de chips dentro dos padrões exigidos pela Apple. A Intel terá de demonstrar que consegue entregar qualidade, escala e regularidade.
O governo americano está no centro da aproximação
A possível união também faz parte de um plano maior dos Estados Unidos.
Nos últimos anos, Washington ampliou os investimentos na produção doméstica de semicondutores. O objetivo é reduzir a dependência de fábricas asiáticas e garantir o fornecimento de componentes utilizados em celulares, carros, equipamentos militares, sistemas de inteligência artificial e praticamente toda a economia digital.
Em agosto de 2025, o governo americano fechou um acordo para investir US$ 8,9 bilhões em ações da Intel. A operação deu aos Estados Unidos uma participação próxima de 10% na fabricante.
A partir daí, o sucesso da Intel deixou de ser apenas um assunto corporativo. A recuperação da empresa também passou a representar um interesse estratégico do governo.
Trump tem apresentado a fabricação local de chips como uma vitória de sua política industrial. Segundo o presidente, a colaboração com a Apple faz parte de uma série de movimentos destinados a trazer projetos, empregos e tecnologia de volta ao país.
Esse envolvimento também explica por que a notícia veio primeiro de uma publicação presidencial, e não de um comunicado tradicional das duas companhias.
O acordo pode mudar os próximos chips da Apple?
Por enquanto, não há confirmação sobre quais componentes seriam fabricados pela Intel.
Também não se sabe quando a produção começaria, qual seria o volume contratado ou quais aparelhos receberiam os primeiros chips. Relatos do setor mencionam processos avançados da Intel e possíveis componentes para Macs e iPads, mas essas informações permanecem no campo das projeções enquanto as empresas não divulgam o contrato.
O ponto mais importante é este: a mudança provavelmente não será percebida pelo consumidor da mesma forma que ocorreu na transição dos Macs com Intel para o Apple Silicon.
O nome Intel pode nem aparecer na caixa do produto. Para o usuário, o aparelho continuaria sendo equipado com um chip projetado pela Apple. A diferença estaria dentro da cadeia de produção, na fábrica responsável por criar aquele componente.
Ainda há perguntas no ar, mas a aproximação já mostra como a corrida pelos semicondutores deixou de ser apenas uma disputa entre empresas. Agora, ela envolve governos, segurança econômica e o futuro da inteligência artificial.
Apple e Intel já dividiram uma longa história. O possível reencontro não seria uma volta ao passado, e sim uma parceria construída para um mercado completamente novo.