O aumento no preço dos chips de memória DRAM e NAND, usados respectivamente para RAM e armazenamento, está pressionando com força o segmento de celulares de entrada, segundo dados da Omdia. Nos aparelhos abaixo de 400 dólares, esses componentes já representam quase 60% do custo total de peças, e em modelos de até 99 dólares esse percentual ultrapassa 64%.

Por que celulares baratos sentem mais o impacto

A produção de celulares de entrada sempre envolveu um equilíbrio delicado entre tela, câmera, bateria, processador, acabamento e memória, buscando manter um preço final competitivo. Esse equilíbrio ficou consideravelmente mais difícil de sustentar com o encarecimento das memórias, já que RAM e armazenamento não são componentes de luxo dentro de um smartphone: eles determinam diretamente a capacidade do aparelho de abrir aplicativos, armazenar fotos, reproduzir vídeos e receber atualizações sem apresentar lentidão excessiva.

Em celulares de entrada, a maior parte dos demais componentes já é escolhida próxima do limite mínimo aceitável, com telas mais simples, conjuntos de câmera com menos recursos, processadores mais modestos e acabamento pensado para reduzir custo. Isso deixa pouca margem para compensar o encarecimento da memória sem impactar o preço final do aparelho ou reduzir ainda mais sua capacidade técnica.

Fabricantes reduzem especificações para conter custos

Segundo a Omdia, fabricantes já vêm tentando aliviar o impacto financeiro reduzindo ou congelando as capacidades de memória oferecidas em aparelhos de entrada e intermediários, enquanto os modelos premium continuam recebendo upgrades regulares de especificação, ampliando a distância técnica entre os dois segmentos do mercado.

Na prática, essa tendência tende a se manifestar por meio de versões com menos armazenamento interno disponível, redução nas opções com maior quantidade de RAM, câmeras ou telas com especificações mais simples, e aumento de preço em modelos que anteriormente ocupavam a faixa de entrada mais acessível. Para o consumidor que compra um celular barato justamente para evitar comprometimento excessivo do orçamento, esse cenário torna a decisão de compra mais complexa, já que o aparelho pode deixar de representar um bom custo-benefício se o preço subir ou a ficha técnica for reduzida de forma perceptível.

O mercado de celulares acessíveis encolhe enquanto os premium crescem

A Omdia projeta uma queda superior a 22% no mercado global de smartphones abaixo de 400 dólares em 2026, enquanto os aparelhos acima desse valor devem crescer 5,7% no mesmo período. A diferença de comportamento entre os dois segmentos tem explicação direta na estrutura de custos de cada um: em celulares intermediários premium e modelos topo de linha, as marcas dispõem de mais margem para ajustar componentes específicos sem comprometer significativamente a proposta geral do produto, seja optando por uma tela um pouco mais barata, reaproveitando um processador de geração anterior ou ajustando o conjunto de câmeras.

Além disso, consumidores que compram aparelhos mais caros costumam absorver aumentos de preço com menor sensibilidade relativa em comparação ao público que busca modelos de entrada, onde qualquer elevação de preço tende a ter impacto proporcionalmente maior na decisão de compra, muitas vezes levando à postergação da troca de aparelho ou à busca por modelos usados como alternativa.

O que considerar na hora de comprar um celular de entrada

Celulares de entrada continuam sendo uma opção viável para quem utiliza o aparelho principalmente para aplicativos de mensagem, redes sociais, serviços bancários, chamadas e fotos do cotidiano. Diante do cenário atual, no entanto, torna-se mais importante avaliar a ficha técnica completa antes da compra, e não apenas o preço final do produto.

Vale verificar se o armazenamento disponível é suficiente para o uso pretendido, se a quantidade de RAM sustenta o funcionamento básico sem lentidão perceptível, e se o fabricante costuma oferecer atualizações de sistema por um período razoável após o lançamento. Um aparelho com preço muito baixo, mas memória insuficiente, tende a gerar frustração relativamente rápido, exigindo exclusão constante de fotos, desinstalação de aplicativos ou limpeza de conversas apenas para viabilizar futuras atualizações do sistema.

Se a pressão sobre o custo das memórias persistir, comparar opções com atenção e aguardar promoções reais tende a ser mais vantajoso do que uma decisão de compra apressada baseada apenas no preço mais baixo disponível no momento. Pagar um valor ligeiramente maior por mais memória, nesse contexto, pode evitar limitações que só se tornam evidentes meses após a compra do aparelho.